quarta-feira, 10 de maio de 2017

Bono Vox


Eu conheço U2 desde sempre, assim como todo mundo. As músicas principais tocam tanto em todo lugar que algumas viram até clichê. Quando aprendi a tocar violão - e isso tem tempo - "Sunday Bloody Sunday" foi uma das músicas que a minha professora ensinou.

Nunca fui colecionador de U2. Do Bono, aliás sei pouco. Li a entrevista dele no livro "As Melhores Entrevistas da Revista Rolling Stones" há alguns anos e sei que perdeu a mãe cedo e teve uma relação conturbada com o pai a vida toda. E no que tange religião e sexualidade, Bono é a antítese de tudo o que eu sou: é cristão e heterossexual.

Mas durante um período conturbado da minha vida, música foi a minha terapia. E as vozes do Bono e do Brandon Flowers (talvez eu escreva sobre ele algum dia aqui também) me traziam calma, inclusive em músicas como "Yahweh" (um dos nomes bíblicos de Deus) e "40" (que é um salmo) - mesmo sendo eu um ateu.

Uma das músicas preferidas - "If God Will Send His Angels" - tem uma letra um pouco cínica (Jesus costumava me mostrar o caminho, então O colocaram no show business e agora é difícil chegar até a porta). E mesmo com tanta influência da religião em sua vida, Bono dedicou "Pride" em um show à aprovação do casamento gay nos Estados Unidos.

Estão dizendo que o U2 volta ao Brasil esse ano. Eu e uma amiga (que aliás, canta "Song For Someone" à capela) iremos com certeza. Então, Bono Vox, nos vemos em outubro. Por enquanto, Feliz Aniversário!

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Fascismo x Paranóia


No livro de ficção científica "Clãs da Lua Alfa" de Philip K. Dick, publicado em 1964, a lua Alfa III M2 é um satélite que serve de asilo para pacientes psiquiátricos terrestres largados à própria sorte. Nessa realidade alternativa, há divisão em grupos sociais (clãs), leis e lideranças semelhantes a um Estado constituído.
Quando uma psicóloga terrestre chega à Lua Alfa, ela conclui que a liderança daquela sociedade recai sobre os paranoicos, o que seria perigoso pela incapacidade deles de sentir empatia e se colocar no lugar do outro. A base emocional de sua ideologia seria o ódio. Ódio por tudo o que diferisse do seu grupo.

Os livros que eu escolho ler em seqüência ou ao mesmo tempo sempre - misteriosamente - se relacionam entre si ou sincronizam. E ao começar a ler "Como Conversar Com Um Fascista", vi que a autora Márcia Tiburi usa palavras muito parecidas com as de PKD para descrever uma situação atual e real: vivemos em uma sociedade fascista e temos muitas pessoas paranoicas em cargos de liderança política, religiosa e midiática. O medo, a paranoia e o ódio estão presentes nos discursos distorcidos e na tentativa de fazer com que vítimas e algozes troquem de lugar ao tentar estabelecer falácias - por exemplo: "heterofobia", "cristofobia" e "racismo reverso" - como verdades.

Eu tive uma experiência com fascistas/ paranoicos há um tempo atrás em uma mesa de bar. Eu ouvi todos os clichês reacionários possíveis - "meritocracia" foi uma palavra dita várias vezes pelo grupo e, acreditem, foi uma das mais "leves". Nesse caso específico eu segui o conselho de RuPaul:
Mas é sempre desconfortável lembrar daquele dia. Aquelas pessoas (que aliás, são gays) reproduzem discursos de opressão sem mensurar os possíveis danos para uma comunidade da qual fazem parte, para elas mesmas. E não são as únicas. Qualquer sessão de comentários de notícias na internet prova isso. Precisa haver limites para a idiotice. Do contrário - como diz M. Tiburi - o que resta é isolar-se e estocar alimentos.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Strike a Pose (2016)


Em 1991, dois documentários de grande importância para a comunidade LGBT foram lançados: "Paris is Burning", que mostrava a cena gay de Nova Iorque do fim dos anos 80 - as drag queens, os bailes, o vogue; e "Truth or Dare", que mostrou os bastidores da Blond Ambition Tour de Madonna e o convívio com sua equipe - parte dela composta por 7 dançarinos: Carlton, Gabriel, Jose, Kevin, Luis, Oliver e Slam. Uma Parada Gay e um beijo entre dois deles foram mostrados no filme. Em meio a polêmica e muitos protestos, a temática LGBT finalmente chegava ao mainstream.

Mal sabiam esses dançarinos que se tornariam ícones da cultura pop. A exposição deles em "Truth or Dare" foi transgressora em uma época de conservadorismo e repressão. Até hoje eles recebem mensagens de gays do mundo todo dizendo o quanto a coragem, a alegria e o talento mostrados foram inspiradores. Eu mesmo admito que foram minha primeira referência gay e quer eu me identificasse com eles ou não, a mensagem absorvida foi: está tudo bem em ser diferente.

Gabriel faleceu em 1995 em decorrência da Aids. E os outros resolveram contar as suas histórias no documentário "Strike a Pose", lançado ano passado. Esses foram os gays que eram jovens nos anos 90 e hoje estão envelhecendo, com uma trajetória de marginalidade, abandono e solidão - que nesse caso, especificamente, contrasta com toda a fama passageira que tiveram.

Doeu saber que a vida não foi pra eles aquilo com o que sempre sonharam. Muitos se deslumbraram, fizeram escolhas erradas e desperdiçaram oportunidades. Ver Slam chorando pelo segredo que não teve coragem de compartilhar com os amigos - resultado da educação rígida do pai - me partiu o coração. Mas me confortou saber que - exceto por Gabriel - eles sobreviveram, os medos e os preconceitos foram superados e hoje em dia estão bem. E sim, é possível superar todo o desamor que nos é imposto. 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Ghost In The Shell e Blade Runner


Eu amo "Blade Runner". E o que eu sinto pelo livro "Andróides Sonham Com Ovelhas Elétricas?" que o inspirou não pode ser descrito por palavras.

Blade Runner apresenta um futuro distópico, sem natureza, predominado pela noite, chuva e fumaça. Baixa qualidade de vida, guetos e ruas imundas em contraste com hologramas, edifícios gigantescos e alta tecnologia. Apesar desse filme ser dos anos 80, eu só fui assistir ano passado por ter lido o livro do Philip K. Dick. E lembro de ter imaginado o que as pessoas que o viram no cinema na época devem ter sentido.

Essa semana eu assisti "Ghost In The Shell". O cenário cyberpunk - estilo que teve Blade Runner e "Neuromancer" como precursores - está ali, com todos os seus aspectos visualmente melhorados (nem dá pra comparar os efeitos especiais de um filme de 2017 com um de 1982). Agora a história é contada pela perspectiva de uma andróide e não de um homem caçador de andróides considerados fugitivos perigosos.

Afinal de contas, o que diferencia uma pessoa de um ser criado artificialmente? O que é realidade e o que é a distorção dela? É possível que um replicante tenha mais empatia aos seres ao seu redor (inclusive os animais) que os humanos? E andróides sonham mesmo com ovelhas elétricas? E as pessoas, com o que sonham? Elas são definidas pelas suas lembranças ou por aquilo que fazem? Quais lembranças são confiáveis? Quanto cada um é capaz de lutar pra sobreviver?

A despeito de todas as críticas que Ghost In The Shell vem sofrendo, eu amei cada detalhe dele. Da atuação de Scarlett à trilha sonora. Mas o maior presente que esse filme me proporcionou foi experimentar um pouco a sensação de assistir a Blade Runner no cinema.

terça-feira, 28 de março de 2017

500 anos depois de "O Príncipe"


O livro "O Príncipe" foi escrito por Maquiavel em 1513 e trata das maneiras que se espera que um príncipe/ líder/ governante conduza o seu principado. Mas a impressão ao ler hoje, em 2017, é de estar lendo um espelho embaçado da realidade atual.

Eis algumas citações do livro que me chamaram a atenção:
- O líder deve sustentar os mais fracos, mas sem permitir que o seu poder seja ampliado. Se todos lhe deverem obediência e gratidão, dificilmente serão corrompidos. 
- Se o líder for usar de atrocidades, que o faça de uma vez só e, de preferência, reversíveis, pois as que acumulam são contraproducentes. Das pequenas afrontas as pessoas podem se vingar, já das graves não conseguem.
- É melhor a um líder ser temido do que amado. A natureza das pessoas é perversa e traiçoeira e é mais provável que se voltem contra quem estimam do que contra quem temem, pois o medo da punição jamais as abandona.

Maquiavel era italiano e escreveu sobre a monarquia nos anos 1500. Vivemos hoje no Brasil em um sistema "democrático". Uma amiga minha historiadora sempre diz que a História é cíclica e se repete. E ela provavelmente está certa.
O que consta nesse livro me leva a fazer um paralelo com as discussões sobre o sistema de cotas (sim, ainda tem gente - e muita - que não aceitou), pensar nos beneficiários de programas sociais se manifestando contra os seus criadores e, principalmente, ter medo da enxurrada de medidas governamentais trágicas (à população, claro) a que estamos sendo submetidos - chegaria ao ponto de todos estarmos de mãos completamente atadas? Talvez nossos governantes tenham estudado Maquiavel. Talvez devamos estudá-lo também.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Querido David


Na minha adolescência, a sua música chegou a mim na voz de outros caras: "The Man Who Sold The World" na do Kurt Cobain e "Heroes" na do Jacob Dylan, filho do seu amigo Bob. Lembro de ter ouvido "I'm Afraid of Americans" em 'Showgirls' e "Heroes" em 'Eu, Christiane F'. De ver o clipe maravilhoso e melancólico de "Thursday's Child" na MTV e o musical "Velvet Goldmine" inspirado na sua vida.

Mas foi em 2015 que você deixou de ser um mero conhecido pra se tornar um marco na minha vida. Meus melhores amigos me deram um livro sobre você, que eu devorei como se fosse uma Bíblia. O livro era sobre o processo criativo dos seus discos nos anos 70. Eu fiquei fascinado com o seu personagem Ziggy Stardust, o rock star andrógino e alienígena.

Descobri que tinhamos vários interesses em comum como astronomia, ufologia e paganismo. Descobri que o seu irmão era esquizofrênico e se matou. E que você disse as palavras do replicante Roy de Blade Runner para homenageá-lo: 'tears in the rain'.

Você tinha medo de um dia enlouquecer. Eu entendo isso. Eu também tenho. Apesar de sempre ouvir dos outros o quanto eu sou "calmo", eu sei o quanto há uma linha tênue entre a sensatez e a insanidade dentro de mim.

Muito antes de eu nascer, você rejeitou a hipermasculinidade imposta pela sociedade. Essa mesma que eu nunca tive. E se hoje, eu me sinto bem sem ela, é graças a pessoas corajosas como você. 

Você ficou lindo vestido de mulher em "Boys Keep Swinging". Você mudou tanto durante a sua vida. "Changes". Mudanças emocionais, de estilo de vida e de música. Mutações enquanto manifesto. Eu li "1984" do George Orwell por sua causa, por você tê-lo referenciado tanto no disco "Diamond Dogs" e foi um dos melhores livros que eu já li na vida.

"Space Oddity", "Life on Mars" e "Loving The Alien" me fazem sonhar com o espaço e a vida fora da Terra. Toda vez que eu ouço "Young Americans" eu sorrio. "Heroes" me conforta e me dá confiança. "Survive" e "Seven" me comovem. Eu ouço cada segundo dos 9:35 de "Cygnet Committee" e reflito sobre cada palavra cantada nela. Dá pra fazer as pazes quando a estrada chega ao fim? Assim como você diz no fim dessa música: eu quero acreditar! E eu quero viver!

Obrigado por cada música maravilhosa que você escreveu. Obrigado por me inspirar. Obrigado por ter feito mais que existir nesse mundo: você fez a diferença nele. E eu amo você, David.

terça-feira, 14 de junho de 2016

A Segunda Guerra nos Livros


Apesar de História não ser o meu forte (eu tendo a confundir eventos, datas, alianças, etc), eu tenho uma queda por livros ambientados na Segunda Guerra Mundial. Esses quatro que eu li são ótimos e recomendo: 


1) A Guardiã da Meia Noite (Sarah Jane Stratford): um grupo de vampiros decide se infiltrar no Partido Nazista para sabotá-los. Com capítulos dispostos em uma narrativa não linear, o livro mescla ficção fantasiosa com fatos históricos como "A Noite dos Cristais" e a dominação da França pela Alemanha Nazista. Apesar de se tratar de uma história vampiresca, não se engane: não se trata de um livro bobo. A grande sacada do livro é fazer refletir sobre quem são os verdadeiros monstros: as criaturas sobrenaturais ou os humanos do III Reich?

P.S.: Tem uma personagem chamada Meaghan que parece ser meio 'qualquer coisa', mas uma das passagens mais fodas do livro acontece com ela.


2) A Menina Que Roubava Livros (Markus Zusak): uma história narrada pela Morte (!) sobre uma família alemã que esconde um jovem judeu fugitivo no porão de sua casa e a amizade da filha do casal (a menina ladra de livros) com ele. A parte que mais me marcou é quando, em um dado momento, a garota desconhece o paradeiro do amigo e decide parar de rezar pela vida dele: "O mundo não o merece". Apesar de ainda ser uma criança, ela se dá conta da realidade atroz que a cerca.


3) O Homem do Castelo Alto (Philip K. Dick): o que teria acontecido com o mundo se a Alemanha e o Japão tivessem ganho a Segunda Guerra? Genocídio no continente africano, os poucos judeus sobreviventes vivendo sob disfarce e a desvalorização total da cultura e arte americana contemporâneas. A Guerra Fria nesse cenário seria entre a Alemanha e o Japão. Realidades alternativas e questões existenciais são temas recorrentes e sempre muito bem trabalhados nas ficções desse autor, que atualmente é o meu preferido.


4) A Fuga de Freud (David Cohen): mesmo com toda a influência e prestígio que tinha na época, o pai da psicanálise e sua família não estiveram imunes à perseguição dos nazistas. Sua filha Anna, tomada pelo desespero, chegou a sugerir que a família cometesse suicídio para escapar dos campos de concentração. Esse foi o último livro que li e ainda sinto aquele nó na garganta que senti quando acabei os outros três.