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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Madonna, Words e Agressão Verbal


"Words" faz parte do álbum "Erotica" de 1992. Nunca foi single, cantada ao vivo ou trabalhada de qualquer forma. Mas é um tesouro escondido em sua obra e um momento brilhante como compositora.

A letra fala sobre o uso de palavras como instrumento de coação e manipulação ("You try to bring me low and gain control with your words") e a incoerência entre discursos e atitudes ("Your actions speak louder than promises"). Os danos desse tipo de agressão são psicológicos, mas podem parecer tão reais quanto uma dor física ("Words, they cut like a kinfe"). E nos últimos segundos da faixa, se ouve o barulho de uma máquina de escrever, que eu sempre interpretei como alguém prestando uma queixa policial após sofrer violência verbal. 

No caso de Madonna, palavras degradantes a seu respeito sempre foram ditas, principalmente nessa época em que ela escolheu incluir posicionamentos sobre religião e sexualidade na sua arte. Quanto a mim, já passei por agressões verbais inúmeras vezes na minha vida, algumas muito novo inclusive, já que sempre fui ~diferente~. E creio que ninguém está imune a essas situações. 

Quando eu prestei vestibular, o tema da minha redação foi: Palavras. Eu lembrei de Words e elaborei um texto inspirado nessa música. Tirei uma nota alta. Posso então dizer que, de alguma forma, Madonna me ajudou a entrar na Universidade.


quinta-feira, 13 de abril de 2017

Strike a Pose (2016)


Em 1991, dois documentários de grande importância para a comunidade LGBT foram lançados: "Paris is Burning", que mostrava a cena gay de Nova Iorque do fim dos anos 80 - as drag queens, os bailes, o vogue; e "Truth or Dare", que mostrou os bastidores da Blond Ambition Tour de Madonna e o convívio com sua equipe - parte dela composta por 7 dançarinos: Carlton, Gabriel, Jose, Kevin, Luis, Oliver e Slam. Uma Parada Gay e um beijo entre dois deles foram mostrados no filme. Em meio a polêmica e muitos protestos, a temática LGBT finalmente chegava ao mainstream.

Mal sabiam esses dançarinos que se tornariam ícones da cultura pop. A exposição deles em "Truth or Dare" foi transgressora em uma época de conservadorismo e repressão. Até hoje eles recebem mensagens de gays do mundo todo dizendo o quanto a coragem, a alegria e o talento mostrados foram inspiradores. Eu mesmo admito que foram minha primeira referência gay e quer eu me identificasse com eles ou não, a mensagem absorvida foi: está tudo bem em ser diferente.

Gabriel faleceu em 1995 em decorrência da Aids. E os outros resolveram contar as suas histórias no documentário "Strike a Pose", lançado ano passado. Esses foram os gays que eram jovens nos anos 90 e hoje estão envelhecendo, com uma trajetória de marginalidade, abandono e solidão - que nesse caso, especificamente, contrasta com toda a fama passageira que tiveram.

Doeu saber que a vida não foi pra eles aquilo com o que sempre sonharam. Muitos se deslumbraram, fizeram escolhas erradas e desperdiçaram oportunidades. Ver Slam chorando pelo segredo que não teve coragem de compartilhar com os amigos - resultado da educação rígida do pai - me partiu o coração. Mas me confortou saber que - exceto por Gabriel - eles sobreviveram, os medos e os preconceitos foram superados e hoje em dia estão bem. E sim, é possível superar todo o desamor que nos é imposto. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Querido David


Na minha adolescência, a sua música chegou a mim na voz de outros caras: "The Man Who Sold The World" na do Kurt Cobain e "Heroes" na do Jacob Dylan, filho do seu amigo Bob. Lembro de ter ouvido "I'm Afraid of Americans" em 'Showgirls' e "Heroes" em 'Eu, Christiane F'. De ver o clipe maravilhoso e melancólico de "Thursday's Child" na MTV e o musical "Velvet Goldmine" inspirado na sua vida.

Mas foi em 2015 que você deixou de ser um mero conhecido pra se tornar um marco na minha vida. Meus melhores amigos me deram um livro sobre você, que eu devorei como se fosse uma Bíblia. O livro era sobre o processo criativo dos seus discos nos anos 70. Eu fiquei fascinado com o seu personagem Ziggy Stardust, o rock star andrógino e alienígena.

Descobri que tinhamos vários interesses em comum como astronomia, ufologia e paganismo. Descobri que o seu irmão era esquizofrênico e se matou. E que você disse as palavras do replicante Roy de Blade Runner para homenageá-lo: 'tears in the rain'.

Você tinha medo de um dia enlouquecer. Eu entendo isso. Eu também tenho. Apesar de sempre ouvir dos outros o quanto eu sou "calmo", eu sei o quanto há uma linha tênue entre a sensatez e a insanidade dentro de mim.

Muito antes de eu nascer, você rejeitou a hipermasculinidade imposta pela sociedade. Essa mesma que eu nunca tive. E se hoje, eu me sinto bem sem ela, é graças a pessoas corajosas como você. 

Você ficou lindo vestido de mulher em "Boys Keep Swinging". Você mudou tanto durante a sua vida. "Changes". Mudanças emocionais, de estilo de vida e de música. Mutações enquanto manifesto. Eu li "1984" do George Orwell por sua causa, por você tê-lo referenciado tanto no disco "Diamond Dogs" e foi um dos melhores livros que eu já li na vida.

"Space Oddity", "Life on Mars" e "Loving The Alien" me fazem sonhar com o espaço e a vida fora da Terra. Toda vez que eu ouço "Young Americans" eu sorrio. "Heroes" me conforta e me dá confiança. "Survive" e "Seven" me comovem. Eu ouço cada segundo dos 9:35 de "Cygnet Committee" e reflito sobre cada palavra cantada nela. Dá pra fazer as pazes quando a estrada chega ao fim? Assim como você diz no fim dessa música: eu quero acreditar! E eu quero viver!

Obrigado por cada música maravilhosa que você escreveu. Obrigado por me inspirar. Obrigado por ter feito mais que existir nesse mundo: você fez a diferença nele. E eu amo você, David.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Velvet Goldmine (1998)


Começo dos anos 70. Brian Slade (Jonathan Rhys Meyers), a maior estrela do glam rock no Reino Unido, polêmico pelo comportamento rebelde e pela bissexualidade, simula o próprio assassinato no palco. Uma década depois, o jornalista Arthur Stuart (Christian Bale) é designado a fazer uma matéria sobre a tal farsa e buscar informações sobre o seu paradeiro. Enquanto investiga a história de Brian, Arthur revisita o próprio passado e o impacto causado em sua vida por suas músicas, seu visual andrógino e sua provocativa parceria com o roqueiro americano Curt Wild (Ewan McGregor).

Eu assisti a esse filme pela primeira vez em 2001 e lembro de ter ficado encantador por Ewan McGregor, que eu veria pouco tempo depois em outro musical: Moulin Rouge! Segundo consta, Brian Slade foi baseado em David Bowie e Curt Wild foi inspirado em Iggy Pop e Lou Reed, embora eu (e muita gente) veja muito de Kurt Cobain nesse personagem - além do nome, teve momentos em que achei a semelhança entre Ewan e Cobain assustadora - embora o diretor Todd Haynes tenha afirmado que nenhuma referência ao líder do Nirvana tenha sido intencionalmente colocada.


Quando a história de Curt foi contada, uma das cenas que mais me marcou foi a terapia de choque a que ele foi submetido pelos pais para "curar" seus desvios sexuais na adolescência. Também foi marcante o flashback do jovem Arthur sendo flagrado pelos pais se masturbando vendo uma foto de Brian e Curt e ouvindo suas músicas: "Você traz vergonha a essa casa!".


A influência do comportamento de Brian e Curt em Arthur e em uma geração cansada de repressão e em busca por liberdade, os rastros de destruição e solidão que Curt deixou em Brian e Brian deixou na esposa Mandy (Toni Collette) com seus respectivos abandonos, o brilho nos olhos de Arthur a cada vez em que ele se aproximava da verdade sobre Brian, as referências ao escritor homossexual do século XIX Oscar Wilde no primeiro e último ato... tudo nesse filme é bonito demais. A história, os atores, as roupas, as músicas. Não é simplesmente um filme, é uma obra prima. Um filme pra ver e ouvir!