segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A ficção científica na minha vida


Há um tempo atrás eu li "O Fim da Infância" (1953) do Arthur C. Clarke, que gira em torno da chegada de uma raça alienígena - os "Senhores Supremos" - superior à humana e que passa a nos governar. Essa nova era traz uma realidade sem guerras e conflitos religiosos e o autor explora as prováveis conseqüências de viver em uma utopia. Uma delas é o declínio das artes. 
- Seria o caos (ou pelo menos um pouco dele) indispensável para alimentar o nosso processo criativo?
Outro ponto marcante no livro é o aspecto físico desses aliens, semelhantes à nossa visão pré-concebida dos demônios. Porém eles são nossos protetores. 
- Até que ponto podemos ser enganados pelas aparências e precisamos nos proteger de nós mesmos?


Em seguida, comecei a ler Philip K. Dick, que utiliza elementos como viagens espaciais, inteligências artificiais, distorções do espaço-tempo e drogas psicodélicas para questionar a realidade.


Em "Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?" (1968), o ponto central é a empatia. Ela não é natural nos humanos e precisa ser estimulada através de uma simulação virtual. Os andróides podem ser tão passionais quanto as pessoas reais e as pessoas tão mecânicas quanto uma I.A. Esse livro inspirou o filme "Blade Runner" (1982), que tem um ponto em comum com "Matrix" (1999) e "Ghost In The Shell" (2017): lembranças falsas são implantadas nos protagonistas e seus corpos e mentes funcionam como entidades distintas, exemplificando o dualismo cartesiano.
- Podemos confiar nas nossas memórias? Seria a consciência - não material - mais confiável que os cinco sentidos?

As histórias de Philip e Arthur (também autor de "2001: Uma Odisséia no Espaço" [1968]) escritas na década de 50, 60 e 70 imaginavam o mundo nos anos 2000 e a experiência maravilhosa em ler é constatar as profecias concretizadas (PKD descreveu um GPS em "Fluam Minhas Lágrimas, Disse o Policial" [1974] e ACC um tablet em "2001") e as não concretizadas (ainda não estamos pegando ônibus espaciais pra Marte como era previsto).

Mas o mais esplêndido na ficção científica - seja antiga ou atual - é perceber que não são simplesmente historinhas bobas de máquinas, planetas e robôs, mas formas de nos enxergarmos como seres humanos, a realidade em que vivemos, nossas decisões e nossa consciência. De uma maneira bem passional, eu posso dizer que a minha vida nunca mais foi a mesma desde que me interessei por FC. Meu interesse por astronomia e filosofia se intensificou. O número de respostas diminuiu e o de perguntas aumentou. Mas acho que isso é bom.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Pílula azul ou pílula vermelha?


Se oferecessem a você uma pílula azul, que faria a vida seguir normalmente ou uma pílula vermelha, que lhe revelaria toda a verdade de modo irreversível, qual você escolheria?
Em 1977, Philip K. Dick disse que vivemos em uma realidade gerada por computadores e a única pista disso seria a distorção dela quando uma variável é modificada.

Há quanto tempo vivemos na Matrix? Talvez desde sempre. Quando Giordano Bruno no século XIV questionou a vida em outros planetas, pôs em cheque as concepções da Igreja e, como um "vírus",  teve de ser "deletado".

No século XVII, Descartes afirmou que podemos ser traídos pelos nossos 5 sentidos e apenas acordados somos capazes de diferenciar as experiências "reais" das que tivemos nos sonhos. Para ele, vivemos ilusões criadas por um "Demônio Maligno" - seria um superneurologista?

Entre 1981 e 1990 centenas de pessoas saudáveis morreram dormindo em Atlanta. A "Síndrome da Morte Noturna Súbita Inexplicável" levantou a hipótese de que sonhos podem matar. Seria esse um exemplo de falha na Matrix citada por Philip K. Dick?

A nossa espécie (homo sapiens) está criando a "próxima espécie": a Inteligência Artificial. Recentemente, o Facebook desativou uma I.A. após ela criar sua própria linguagem.


No filme Matrix, Neo sofre do mesmo mal do caçador de andróides de Blade Runner em determinado ponto: descobrir que tudo o que viveu foi mera ilusão.
Há referências ao Cristianismo. Neo é o Escolhido, o salvador, embora prefira crer que molda o próprio destino. Trinity faz alusão à Santíssima Trindade. Cypher é um Judas hedonista. Não por coincidência, o filme foi lançado na Páscoa de 1999.

Será que a física, a psicologia, a mitologia e a religião tem fundamento ou são formas elaboradas de mascarar a verdade e a irregularidade do tempo e espaço? De acordo com Trinity, são as perguntas que nos movem. E eu concordo com ela.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

O Povo Contra Courtney Love


Viúva de Kurt Cobain, rockeira, atriz. A banda dela, Hole, pra mim foi uma das melhores que já existiu mesmo ela sendo uma guitarrista horrível e uma cantora questionável.

E como atriz, é muito, muito intensa. Pra quem nunca a viu atuando, recomendo "O Povo Contra Larry Flynt" (1997), baseado no criador da controversa revista pornográfica Hustler nos anos 70 e suas batalhas judiciais ao longo da vida. Courtney interpretou Althea, mulher de Larry (Woody Harrelson) e roubou a cena, ganhando prêmios, inclusive sendo indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz.

O diretor Milos Forman sempre destacou sua disciplina e o compromisso em ficar longe das drogas durante as filmagens, mesmo interpretando uma ex-stripper viciada como Althea Flynt - algo muito próximo da sua própria vida.

Disciplina é algo que Courtney tem no que se refere à música também. "É raro ter alguém com esse nível de talento lírico. Quando você é capaz de trabalhar com alguém naquele nível literário, que se destaca como compositora - é uma honra", disse Sean Slade, produtor do álbum Live Through This, de 1994.

Kurt Cobain sempre é citado como gênio. Pra mim, quem é genial é ela. Aqui uma das minhas músicas preferidas:


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Marte - na Astronomia e na Ficção Científica

Na mitologia romana, "Marte" era o Deus da guerra e da carnificina e esse nome foi escolhido para o planeta devido à sua coloração vermelha derivada do ferro oxidado. Vermelho não é a única cor de Marte: há tons de dourado, bege e marrom por conta dos minerais.

Em Marte, o céu é amarelo quando o Sol nasce e rosa quando se põe. As estações do ano são bem definidas e há duas Luas: Demos e Fobos. Há quem diga que Fobos é um satélite artificial criado por uma civilização extraterrestre antiga e que vai se desintegrar e tornar um anel em torno de Marte daqui a milhões de anos.

O solo de Marte é cheio de crateras devido a quedas de asteroides e a sua maior montanha - o Monte Olimpo - é 3 vezes mais alta que o Monte Everest terrestre, com 27 km de altura, sendo na verdade um vulcão fora de atividade.

Se a humanidade tivesse se desenvolvido em Marte, todos teríamos pelos no corpo todo para suportar os invernos rigorosos e haveria poucas diferenças étnicas, assim como haveria pouca biodiversidade em um modo geral. Agencias espaciais terrestres já enviaram algumas IA's ao planeta, como o robô Sojourner, que ficou em atividade de 1997 a 2006 e a sonda Opportunity, que chegou lá em 2004, desafiou a morte e ainda está lá. Um dos desafios na exploração do planeta seria a sanidade mental dos astronautas: a radiação cósmica pode levá-los à demência no trajeto.

O deserto do Atacama, no Chile, é considerado o lugar terrestre com características mais próximas às de Marte.


Marte na Música

Já foi homenageada por David Bowie em Life on Mars (1971).

Marte na Ficção Científica

O livro "As Crônicas Marcianas" foi escrito por Ray Bradbury no final dos anos 40 e é uma coletânea de contos sobre expedições à Marte. Chamam atenção o potencial de destruição dos exploradores no planeta vermelho e seus encontros com pessoas mortas em muitas das histórias.

Já em "Os Três Estigmas de Palmer Eldritch", de 1964, o profético Philip K. Dick descreve a colonização de Marte impulsionada pelo superaquecimento terrestre e o uso de alucinógenos pelos colonos para sobreviver ao tédio. O slogan do traficante Palmer Eldritch para suas drogas é: "Deus promete a vida eterna; nós cumprimos essa promessa".

domingo, 4 de junho de 2017

Angelina


Não é difícil falar sobre a minha atriz preferida. Angelina consegue dar vida a sociopata (Garota, Interrompida), viciada (Gia), uma pilantra em filme de época (Pecado Original), uma mãe que perdeu um filho (A Troca); humanizar uma vilã clássica da Disney (Malévola) e até nos filmes mais fracos, é um prazer vê-la atuando.

Pessoalmente, ela é uma força da natureza e alguém em quem rótulos não cabem. Eu a associo à liberdade, sobretudo liberdade de escolha. A mulher que não acredita em Deus, mas não mede esforços para ajudar ao próximo. Mais que doar dinheiro, ela vai pessoalmente a campos de refugiados e se engaja em causas humanitárias. 
A mulher que administrou bem o uso de drogas, a bissexualidade, "roubou" o marido da namoradinha dos Estados Unidos, casou, teve alguns filhos, adotou outros e removeu os seios para não desenvolver o câncer que matou a própria mãe.

A última vez que a vi no cinema foi em "À Beira Mar" (2015), também dirigido e roteirizado por ela, atuando com o ex-marido Brad Pitt. O curioso é que o filme não tem nada a ver com "Sr. e Sra. Smith", lançado dez anos antes e me pergunto o quanto a realidade do casal pode ter influenciado no processo de criação desse filme, já que Angelina é conhecida por se integrar demais aos personagens que interpreta.

"É algo tão intenso ser absorvida para dentro de um filme. É como descobrir que se tem uma doença fatal, restando-lhe apenas pouco tempo de vida. Então você sai daquele mundo como uma cobra trocando de pele e se vê sozinha e com frio". Angelina Jolie, sobre atuar.

O projeto atual dela é esse aqui: "First They Killed My Father", novamente como diretora e eu não vejo a hora de estrear.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

Madonna, Words e Agressão Verbal


"Words" faz parte do álbum "Erotica" de 1992. Nunca foi single, cantada ao vivo ou trabalhada de qualquer forma. Mas é um tesouro escondido em sua obra e um momento brilhante como compositora.

A letra fala sobre o uso de palavras como instrumento de coação e manipulação ("You try to bring me low and gain control with your words") e a incoerência entre discursos e atitudes ("Your actions speak louder than promises"). Os danos desse tipo de agressão são psicológicos, mas podem parecer tão reais quanto uma dor física ("Words, they cut like a kinfe"). E nos últimos segundos da faixa, se ouve o barulho de uma máquina de escrever, que eu sempre interpretei como alguém prestando uma queixa policial após sofrer violência verbal. 

No caso de Madonna, palavras degradantes a seu respeito sempre foram ditas, principalmente nessa época em que ela escolheu incluir posicionamentos sobre religião e sexualidade na sua arte. Quanto a mim, já passei por agressões verbais inúmeras vezes na minha vida, algumas muito novo inclusive, já que sempre fui ~diferente~. E creio que ninguém está imune a essas situações. 

Quando eu prestei vestibular, o tema da minha redação foi: Palavras. Eu lembrei de Words e elaborei um texto inspirado nessa música. Tirei uma nota alta. Posso então dizer que, de alguma forma, Madonna me ajudou a entrar na Universidade.


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Bono Vox


Eu conheço U2 desde sempre, assim como todo mundo. As músicas principais tocam tanto em todo lugar que algumas viram até clichê. Quando aprendi a tocar violão - e isso tem tempo - "Sunday Bloody Sunday" foi uma das músicas que a minha professora ensinou.

Nunca fui colecionador de U2. Do Bono, aliás sei pouco. Li a entrevista dele no livro "As Melhores Entrevistas da Revista Rolling Stones" há alguns anos e sei que perdeu a mãe cedo e teve uma relação conturbada com o pai a vida toda. E no que tange religião e sexualidade, Bono é a antítese de tudo o que eu sou: é cristão e heterossexual.

Mas durante um período conturbado da minha vida, música foi a minha terapia. E as vozes do Bono e do Brandon Flowers (talvez eu escreva sobre ele algum dia aqui também) me traziam calma, inclusive em músicas como "Yahweh" (um dos nomes bíblicos de Deus) e "40" (que é um salmo) - mesmo sendo eu um ateu.

Uma das músicas preferidas - "If God Will Send His Angels" - tem uma letra um pouco cínica (Jesus costumava me mostrar o caminho, então O colocaram no show business e agora é difícil chegar até a porta). E mesmo com tanta influência da religião em sua vida, Bono dedicou "Pride" em um show à aprovação do casamento gay nos Estados Unidos.

Estão dizendo que o U2 volta ao Brasil esse ano. Eu e uma amiga (que aliás, canta "Song For Someone" à capela) iremos com certeza. Então, Bono Vox, nos vemos em outubro. Por enquanto, Feliz Aniversário!