quarta-feira, 27 de junho de 2018

Continuações não-oficiais de Blade Runner em livros (Parte 1)

Apesar da má recepção quando lançado em 1982, no anos 90 o filme Blade Runner foi revisitado e se transformou em um clássico, assim como o livro Andróides Sonham Com Ovelhas Elétricas? que o inspirou, gerando a pergunta: haveria uma sequência? No cinema, isso só aconteceria em 2017, mas nos livros a sonhada continuação chegou já em 1995.


Blade Runner 2 - A Fronteira do Humano se passa em 2020. Deckard ainda não sabe se é humano ou um dos replicantes, seres cuja origem é explorada de maneira um pouco diferente da história original: não seriam fabricados do zero, mas uma espécie de clones tecnológicos e aperfeiçoados com base em protótipos humanos pré-existentes.

Apesar da dissonância, isso possibilitou o retorno dos replicantes do filme para a história e é coerente com a época do lançamento do livro: experiências genéticas eram assunto dominante nos anos 90 na ficção - em filmes como GATTACA - e na realidade, quando o mundo assistiu a primeira clonagem de um mamífero a partir de uma célula adulta: a ovelha Dolly.


Outro ponto positivo é que o livro resgata também os personagens John Isidore (que está em Andróides Sonham... mas não está no filme) e J. F. Sebastian (que está em Blade Runner, mas não existe no livro original).

Essa sequência não foi escrita por Philip K. Dick, falecido antes mesmo da estréia do filme, mas por K. W. Jeter, que curiosamente foi amigo pessoal de Philip em vida e inspirou um dos personagens do seu livro VALIS. Blade Runner 2 - A Fronteira do Humano não é nenhuma maravilha, mas está longe de ser ruim.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Aniquilação (2018): demônios, pânico e autodestruição

Uma dos melhores coisas que vi nos últimos tempos foi o original Netflix "Aniquilação". Incômodo, de difícil absorção e entendimento, nada palatável. Em meio a teorias e tentativas de compreensão do filme, uma pergunta feita pela Dra. Ventress (personagem da Jennifer Jason Leigh) ficou na minha cabeça: "Por que a minoria das pessoas se suicida, mas a maioria delas se autodestrói?"

Uma resposta, ao menos parcial, encontrei em "Os demônios de Loudon" de Aldous Huxley. A Psicanálise considera teorias de Pulsão de Morte e Pulsão de Vida trabalhando em direções opostas, porém conectadas, relacionadas ao inconsciente. Embora tentativas de suicídio sejam comuns em estado de histeria, raramente são levadas à cabo. 

Ações autodestrutivas também são cometidas conscientemente. A autoflagelação, propagada com força pela Igreja na Idade Média e utilizada até hoje, causa ganhos secundários fisiologicamente: períodos de jejum causam intensa lucidez; ausência de sono reduz o limiar entre o consciente e o subconsciente e a dor física, em determinados níveis, pode causar um choque energético. A recompensa seria a transcendência e, nesse viés, o sofrimento aproximaria de Deus.

De volta ao filme, sei que muita gente não gostou, mas não há como negar que as cenas enchem os olhos com sua beleza (e bizarrice também). Pra mim, o filme como um todo mostra metáforas de uma desordem mental como a Síndrome do Pânico e as modificações genéticas monstruosas representam o comprometimento da percepção de um indivíduo em um momento de crise.

Natalie Porman, que tinha me decepcionado um pouco em filmes recentes (considero "Jackie" uma caricatura e "Song to Song" um projeto ruim e aquém de sua capacidade como atriz), está maravilhosa em "Aniquilação".


sexta-feira, 27 de abril de 2018

Metáforas visuais usadas no cinema

No livro "Como Ver um Filme", Ana Maria Bahiana cita alguma metáforas visuais comuns nos filmes e o seu significado.


Objetos caindo do céu: geralmente antecipam catástrofes. Em Laurence Anyways, (Laurence é uma mulher trans que continua amando a namorada do mesmo modo de antes da transição), uma cena marcante é a das das roupas caindo do céu enquanto Laurence e Fred passeiam em um dos seus reencontros e antecipa uma fase difícil e conflituosa entre o casal.

Voar: costuma ser uma metáfora para o orgasmo, extremo prazer, liberdade e poder absoluto e como exemplo podem ser usados o momento em que Jack e Rose simulam vôo em Titanic e - fora do cinema - o vôo de Madonna em Like a Prayer (em 1:20 do vídeo).

Descer ao porão/ subsolo: investigar o inconsciente. Em Garota, Interrompida, o porão da instituição psiquiátrica é mostrado logo no início, embora a cena - que é um acerto de contas entre as personagens onde os problemas reais, escondidos em um plano inferior da consciência, vêm à tona - seja do último ato. É considerado um dos grandes momentos da carreira da atriz Angelina Jolie.

Chuva: remete à purificação, exorcismo do passado e a força do destino. Como exemplos, dá pra citar Titanic novamente com a chegada de Rose em Nova Iorque, quando decide mudar o seu nome após a tragédia e - para não perder o costume - Blade Runner, com a clássica cena em que Roy poupa a vida de Rick e faz o monólogo sobre as memórias perdidas no tempo como lágrimas na chuva. Em Blade Runner 2049, a chuva aparece de novo, mas com um novo contexto: para Joi, sentir a chuva significa existência no mundo real.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Blade Runner e os personagens do livro que ficaram de fora do filme

Já falei algumas vezes sobre "Blade Runner" e "Andróides Sonham Com Ovelhas Elétricas?" aqui, aqui e sobre o segundo filme aqui. Pra mim o livro e os dois filmes se completam. Falo agora um pouco sobre personagens que foram excluídos e modificados na adaptação cinematográfica de 1982.


Animais artificiais: embora eles sejam mencionados entre Rick e Rachael no filme (ao chegar na Tyrell Corporation, Rick pergunta se a coruja é de verdade), no livro "Andróides Sonham Com Ovelhas Elétricas?", eles têm mais peso na história. Animais reais são raríssimos e possuir um é símbolo de status, o que faz com que muitos adquiram animais elétricos parecidíssimos com os verdadeiros.


Iran, a esposa de Rick: no livro, Rick é casado com uma mulher cuja característica principal é a apatia. Os andróides que eu persigo tem mais desejo de viver do que a minha esposa, diz Rick em determinado momento.


Luba Luft, a andróide cantora de Ópera: impressiona Rick com seu talento. Como algo sem humanidade alguma poderia expressar tanta emoção? É ela quem planta na cabeça de Rick a dúvida sobre ser andróide ou humano ao sugerir que ele também se submeta ao teste Voight-Kampff.


Willbur Mercer: ele é Deus nessa realidade. As pessoas se conectam com ele através da caixa de empatia, em que revivem sua experiência de escalar uma montanha e ser atingido por pedras durante o percurso. Algo crucial sobre Mercer é revelado perto do fim da história.


John Isidore: ele é o motorista do "hospital veterinário" de animais elétricos. Por ter um QI abaixo da média, não pôde emigrar para as colônias fora da Terra. É ele quem abriga Roy e Pris sem se dar conta de que são andróides e de suas intenções. Isidore é algo raro nos livros de Philip K. Dick: um personagem genuinamente puro e bondoso.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Marilyn Monroe


Quando me interessei por cinema clássico, assisti "O Pecado Mora ao Lado" e "Os Homens Preferem as Loiras", com Marilyn Monroe. Estava seguindo o protocolo das descobertas cinematográficas. Não fiquei impressionado com ela, mas decidi dar mais uma chance. Assisti então "Niagara" e ali eu soube que tinha sido finalmente hipnotizado.

Pouco tempo depois, eu estava assistindo a todos os seus filmes e devorando livros sobre sua vida - nem todos bons. "Marilyn e JFK", de François Forestier, parece pouco confiável, além de se referir à Marilyn e Jackie de modo misógino. Em "Marilyn", Norman Mailer aparenta maior preocupação em rebater dados de outros escritores do que em contar a história dela.

Se eu tiver que recomendar um livro biográfico seria "Os Últimos Anos de Marilyn Monroe" de Keith Badman. Através de uma pesquisa bem feita, o autor esmiuça detalhes da vida da atriz nos anos de 1961 e 1962: sua internação em uma clínica psiquiátrica aos 35 anos, possíveis estupros, seu vício em remédios, seu relacionamento com o irmãos Kennedy e com aquele que nunca a abandonou - o ex-marido Joe DiMaggio. Lembro de ter achado esse livro fascinante e perturbador ao mesmo tempo.


Sobre filmes, eu recomendaria "Don't Bother to Knock", em que Marilyn interpreta uma babá com problemas mentais; e "Niagara", em que faz uma mulher que planeja a morte do marido. O interessante desses dois títulos é que as personagens fogem do clichê loira-burra-sensual que viria a se tornar lugar comum em sua carreira.

Se eu tiver que recomendar um momento musical, seria ela cantando "One Silver Dollar" no filme "River of No Return". Fuja do filme: é horroroso. Mas ouça a música, que é perfeita e ficou linda na voz dela.


segunda-feira, 12 de março de 2018

Major Tom e filmes espaciais


Nesse fim de semana eu assisti ao filme Lunar. Ele é de 2009, mas não me importei na época do lançamento porque ainda não era tão ligado à ficção científica. Na história, um astronauta interpretado por Sam Rockwell está no espaço, prestes a concluir uma missão de 3 anos na Lua.

São perceptíveis algumas influências nesse filme. A mais nítida é a de 2001 - Uma Odisséia no Espaço (1968) - é impossível não comparar o computador GERTY de Lunar ao computador HAL 9000. Também consigo enxergar nele algo de Solaris, filme soviético de 1972 (considerado a resposta dos russos ao sucesso de 2001, ou o anti-2001), baseado no livro de Stanislaw Lem - que aliás tem um dos meus trechos preferidos - no que se refere à sanidade mental do personagem e suas possíveis alucinações.


Mas sem dúvida não dá pra assistir à Lunar sem pensar em Space Oddity do David Bowie, afinal de contas o filme foi dirigido por ninguém menos que o seu filho, Duncan Jones. Música que, por sua vez, também foi inspirada em 2001 e nos apresentou o Major Tom, personagem que não se limitou ao seu criador e também foi citado em músicas do Peter Schilling e da Lana Del Rey.

Os homens do espaço sentem falta de suas esposas e querem que elas saibam que as amam. O planeta Terra é azul - e não há nada que possam fazer.


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O que Aldous Huxley pensava sobre Hitler e Stalin?

Aldous Huxley é famoso pela obra mundialmente conhecida "Admirável Mundo Novo", ficção utópica/ distópica sobre uma realidade "esterilizada", com pessoas produzidas em laboratório, hierarquias sociais bem definidas sem questionamentos; e um medicamento - o Soma - capaz de anestesiar os sentimentos.

Nos livros "A Ilha" e "A Situação Humana", Huxley faz considerações interessantes sobre Adolf Hitler. Em "A Ilha", um dos personagens diz que Hitler não passava de um Peter Pan categórico: vida escolar medíocre, incapaz de competir e cooperar, sexualmente atrasado na puberdade. Se tivesse algum talento, poderia ter sido um Michelangelo, mas seus únicos dons eram odiar e gritar. "30 milhões de mortes foi o preço que o mundo teve de pagar pelo amadurecimento tardio do pequeno Adolf".

Ao contrário dos Peter Pans, que são ótimos para começar guerras com seus delírios, outro tipo de delinquente - os Valentões, como Stalin - com sua força física e realismo sem ambiguidades - é que conseguem desfechos bem sucedidos.

Em "A Situação Humana" (que não é um livro de ficção), Huxley relaciona Hitler à Depressão dos anos 30 nos Estados Unidos: o fantasma do desemprego só desapareceu quando os armamentos começaram a ser fabricados em grande escala em resposta à ameaça nazista. Que paradoxo terrível: a prosperidade do Ocidente dever ao fenômeno Hitler.

Essa é a vida real, que faz "1984" e "Admirável Mundo Novo" parecerem histórias de ninar.