terça-feira, 28 de março de 2017

500 anos depois de "O Príncipe"


O livro "O Príncipe" foi escrito por Maquiavel em 1513 e trata das maneiras que se espera que um príncipe/ líder/ governante conduza o seu principado. Mas a impressão ao ler hoje, em 2017, é de estar lendo um espelho embaçado da realidade atual.

Eis algumas citações do livro que me chamaram a atenção:
- O líder deve sustentar os mais fracos, mas sem permitir que o seu poder seja ampliado. Se todos lhe deverem obediência e gratidão, dificilmente serão corrompidos. 
- Se o líder for usar de atrocidades, que o faça de uma vez só e, de preferência, reversíveis, pois as que acumulam são contraproducentes. Das pequenas afrontas as pessoas podem se vingar, já das graves não conseguem.
- É melhor a um líder ser temido do que amado. A natureza das pessoas é perversa e traiçoeira e é mais provável que se voltem contra quem estimam do que contra quem temem, pois o medo da punição jamais as abandona.

Maquiavel era italiano e escreveu sobre a monarquia nos anos 1500. Vivemos hoje no Brasil em um sistema "democrático". Uma amiga minha historiadora sempre diz que a História é cíclica e se repete. E ela provavelmente está certa.
O que consta nesse livro me leva a fazer um paralelo com as discussões sobre o sistema de cotas (sim, ainda tem gente - e muita - que não aceitou), pensar nos beneficiários de programas sociais se manifestando contra os seus criadores e, principalmente, ter medo da enxurrada de medidas governamentais trágicas (à população, claro) a que estamos sendo submetidos - chegaria ao ponto de todos estarmos de mãos completamente atadas? Talvez nossos governantes tenham estudado Maquiavel. Talvez devamos estudá-lo também.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Querido David


Na minha adolescência, a sua música chegou a mim na voz de outros caras: "The Man Who Sold The World" na do Kurt Cobain e "Heroes" na do Jacob Dylan, filho do seu amigo Bob. Lembro de ter ouvido "I'm Afraid of Americans" em 'Showgirls' e "Heroes" em 'Eu, Christiane F'. De ver o clipe maravilhoso e melancólico de "Thursday's Child" na MTV e o musical "Velvet Goldmine" inspirado na sua vida.

Mas foi em 2015 que você deixou de ser um mero conhecido pra se tornar um marco na minha vida. Meus melhores amigos me deram um livro sobre você, que eu devorei como se fosse uma Bíblia. O livro era sobre o processo criativo dos seus discos nos anos 70. Eu fiquei fascinado com o seu personagem Ziggy Stardust, o rock star andrógino e alienígena.

Descobri que tinhamos vários interesses em comum como astronomia, ufologia e paganismo. Descobri que o seu irmão era esquizofrênico e se matou. E que você disse as palavras do replicante Roy de Blade Runner para homenageá-lo: 'tears in the rain'.

Você tinha medo de um dia enlouquecer. Eu entendo isso. Eu também tenho. Apesar de sempre ouvir dos outros o quanto eu sou "calmo", eu sei o quanto há uma linha tênue entre a sensatez e a insanidade dentro de mim.

Muito antes de eu nascer, você rejeitou a hipermasculinidade imposta pela sociedade. Essa mesma que eu nunca tive. E se hoje, eu me sinto bem sem ela, é graças a pessoas corajosas como você. 

Você ficou lindo vestido de mulher em "Boys Keep Swinging". Você mudou tanto durante a sua vida. "Changes". Mudanças emocionais, de estilo de vida e de música. Mutações enquanto manifesto. Eu li "1984" do George Orwell por sua causa, por você tê-lo referenciado tanto no disco "Diamond Dogs" e foi um dos melhores livros que eu já li na vida.

"Space Oddity", "Life on Mars" e "Loving The Alien" me fazem sonhar com o espaço e a vida fora da Terra. Toda vez que eu ouço "Young Americans" eu sorrio. "Heroes" me conforta e me dá confiança. "Survive" e "Seven" me comovem. Eu ouço cada segundo dos 9:35 de "Cygnet Committee" e reflito sobre cada palavra cantada nela. Dá pra fazer as pazes quando a estrada chega ao fim? Assim como você diz no fim dessa música: eu quero acreditar! E eu quero viver!

Obrigado por cada música maravilhosa que você escreveu. Obrigado por me inspirar. Obrigado por ter feito mais que existir nesse mundo: você fez a diferença nele. E eu amo você, David.

terça-feira, 14 de junho de 2016

A Segunda Guerra nos Livros


Apesar de História não ser o meu forte (eu tendo a confundir eventos, datas, alianças, etc), eu tenho uma queda por livros ambientados na Segunda Guerra Mundial. Esses quatro que eu li são ótimos e recomendo: 


1) A Guardiã da Meia Noite (Sarah Jane Stratford): um grupo de vampiros decide se infiltrar no Partido Nazista para sabotá-los. Com capítulos dispostos em uma narrativa não linear, o livro mescla ficção fantasiosa com fatos históricos como "A Noite dos Cristais" e a dominação da França pela Alemanha Nazista. Apesar de se tratar de uma história vampiresca, não se engane: não se trata de um livro bobo. A grande sacada do livro é fazer refletir sobre quem são os verdadeiros monstros: as criaturas sobrenaturais ou os humanos do III Reich?

P.S.: Tem uma personagem chamada Meaghan que parece ser meio 'qualquer coisa', mas uma das passagens mais fodas do livro acontece com ela.


2) A Menina Que Roubava Livros (Markus Zusak): uma história narrada pela Morte (!) sobre uma família alemã que esconde um jovem judeu fugitivo no porão de sua casa e a amizade da filha do casal (a menina ladra de livros) com ele. A parte que mais me marcou é quando, em um dado momento, a garota desconhece o paradeiro do amigo e decide parar de rezar pela vida dele: "O mundo não o merece". Apesar de ainda ser uma criança, ela se dá conta da realidade atroz que a cerca.


3) O Homem do Castelo Alto (Philip K. Dick): o que teria acontecido com o mundo se a Alemanha e o Japão tivessem ganho a Segunda Guerra? Genocídio no continente africano, os poucos judeus sobreviventes vivendo sob disfarce e a desvalorização total da cultura e arte americana contemporâneas. A Guerra Fria nesse cenário seria entre a Alemanha e o Japão. Realidades alternativas e questões existenciais são temas recorrentes e sempre muito bem trabalhados nas ficções desse autor, que atualmente é o meu preferido.


4) A Fuga de Freud (David Cohen): mesmo com toda a influência e prestígio que tinha na época, o pai da psicanálise e sua família não estiveram imunes à perseguição dos nazistas. Sua filha Anna, tomada pelo desespero, chegou a sugerir que a família cometesse suicídio para escapar dos campos de concentração. Esse foi o último livro que li e ainda sinto aquele nó na garganta que senti quando acabei os outros três. 

terça-feira, 12 de maio de 2015

Velvet Goldmine (1998)


Começo dos anos 70. Brian Slade (Jonathan Rhys Meyers), a maior estrela do glam rock no Reino Unido, polêmico pelo comportamento rebelde e pela bissexualidade, simula o próprio assassinato no palco. Uma década depois, o jornalista Arthur Stuart (Christian Bale) é designado a fazer uma matéria sobre a tal farsa e buscar informações sobre o seu paradeiro. Enquanto investiga a história de Brian, Arthur revisita o próprio passado e o impacto causado em sua vida por suas músicas, seu visual andrógino e sua provocativa parceria com o roqueiro americano Curt Wild (Ewan McGregor).

Eu assisti a esse filme pela primeira vez em 2001 e lembro de ter ficado encantador por Ewan McGregor, que eu veria pouco tempo depois em outro musical: Moulin Rouge! Segundo consta, Brian Slade foi baseado em David Bowie e Curt Wild foi inspirado em Iggy Pop e Lou Reed, embora eu (e muita gente) veja muito de Kurt Cobain nesse personagem - além do nome, teve momentos em que achei a semelhança entre Ewan e Cobain assustadora - embora o diretor Todd Haynes tenha afirmado que nenhuma referência ao líder do Nirvana tenha sido intencionalmente colocada.


Quando a história de Curt foi contada, uma das cenas que mais me marcou foi a terapia de choque a que ele foi submetido pelos pais para "curar" seus desvios sexuais na adolescência. Também foi marcante o flashback do jovem Arthur sendo flagrado pelos pais se masturbando vendo uma foto de Brian e Curt e ouvindo suas músicas: "Você traz vergonha a essa casa!".


A influência do comportamento de Brian e Curt em Arthur e em uma geração cansada de repressão e em busca por liberdade, os rastros de destruição e solidão que Curt deixou em Brian e Brian deixou na esposa Mandy (Toni Collette) com seus respectivos abandonos, o brilho nos olhos de Arthur a cada vez em que ele se aproximava da verdade sobre Brian, as referências ao escritor homossexual do século XIX Oscar Wilde no primeiro e último ato... tudo nesse filme é bonito demais. A história, os atores, as roupas, as músicas. Não é simplesmente um filme, é uma obra prima. Um filme pra ver e ouvir!


quinta-feira, 26 de março de 2015

"O Iluminado": O Livro de Stephen King e o Filme de Stanley Kubrick


Os elementos em comum entre o livro e o filme "O Iluminado"
Jack Torrance é um escritor e ex-professor contratado como zelador durante o inverno no Hotel Overlook nas montanhas do Colorado. Devido à localização e às nevascas, o lugar se torna isolado e inacessível nessa época. Sua esposa Wendy e seu filho de 5 anos, Danny, o acompanham no novo emprego. Jack é um alcoólatra em recuperação que parou de beber após quebrar acidentalmente o braço do filho e perder seu emprego como professor. Desde então, Wendy é uma mulher insatisfeita e ressentida com o marido. 
Danny é capaz de ler pensamentos e prever o futuro, coisas que seu "amigo imaginário" Tony conta através de sonhos e transes. Antes da mudança, Danny prevê que o hotel representa perigo para sua família e é acalmado pelo cozinheiro do Overlook, Dick Hallorann, um homem negro de meia idade que está de partida do hotel. Dick também é telepata e explica que as habilidades psíquicas de ambos são "iluminações" e as coisas que Danny está para ver são como "figuras de um livro, não podem machucar". Entretanto, Dick enfatiza que Danny deve manter distância do quarto 217 (237 no filme).
Danny desobedece a recomendação, entra no quarto e é atacado pela mulher morta que estava na banheira da suíte enquanto Jack começa a ser possuído pelas forças malignas do Hotel, passando a visualizar e interagir com fantasmas, inclusive o do zelador anterior, Grady, que havia assassinado a família e depois se suicidado, e recomenda que Jack faça o mesmo, levando Wendy e Danny a uma fuga desesperada com a ajuda de Dick.

As particularidades que complementam e diferenciam o filme e o livro
Há um background sobre Jack no livro que não é mostrado no filme. Jack cresceu em uma família disfuncional, com um pai abusivo e violento com os filhos e a mulher. Apesar do alcoolismo e de alguns episódios de rompantes raivosos, Jack é um homem, de certa forma, sob controle e consciente, tanto que para de beber por conta própria por amor ao filho, com quem possui uma ligação afetiva mais forte do que aparece no filme, que também passa a impressão de que Jack é demente desde sempre.

É dito no filme que a construção do Hotel Overlook se fez em cima de um cemitério indígena no começo do século - considerada uma metáfora de Kubrick sobre o genocídio dos nativos americanos - o que seria a origem (ou uma delas) das forças ocultas que predominam sobre o local.  De acordo com o livro, a malignidade deriva dos assassinatos e suicídios ocorridos no decorrer das décadas em que o Hotel foi comandado por uma sucessão de mafiosos e o destempero de Jack se acentua ao encontrar no porão papéis e recortes de jornais sobre tais acontecimentos.

As visões de Danny no livro são confusas. Ele é avisado por Tony sobre o "redrum" (murder, ou seja, assassinato lido de trás pra frente) e os recursos audiovisuais usados no filme (o banho de sangue no corredor e a visão das gêmeas assassinadas - que não faz parte do livro) são excelentes representações delas. A comunicação telepática entre Danny e Dick ao se conhecerem e mais tarde, no momento em que Danny pede socorro a Dick, é bem retratada com o ruído desconcertante e as trocas de olhares entre os personagens em cena. O Danny do livro é mais comunicativo, eloquente e confortável com suas habilidades psíquicas do que o do filme.

Wendy no filme é excessivamente abatida (o que talvez seja reflexo do stress pelo qual passou a atriz Shelley Duvall durante as filmagens, já que ela e o diretor não se deram bem) e um pouco mais histérica do que o livro sugere. Seu contato com o conteúdo sobrenatural do hotel se dá em dois momentos no filme: ao encontrar os esqueletos no salão de festas e ao ver um homem fantasiado de urso fazendo sexo oral em outro em um dos quartos.

Mas a principal modificação de Kubrick na história de King está no final. Enquanto no livro Danny e Wendy fogem com a ajuda de Dick e Jack morre com o incêndio provocado pelo aquecimento da caldeira no hotel, no filme Dick não sobrevive. Wendy e Danny conseguem fugir e Jack morre congelado procurando por eles fora do hotel. A conclusão do filme mostra uma foto na parede de um baile ocorrido em 4 de Julho de 1921 e Jack está nela, sugerindo que Jack seria a reencarnação de alguém que esteve no hotel nos anos 20 ou que foi absorvido pelo Overlook, embora o interesse primordial do hotel de acordo com o livro estivesse na posse de Danny e não de Jack.

O fim do livro mostra Dick prestando solidariedade a Wendy e Danny, que sofre pela ausência do pai e descobrimos que Tony é, na verdade, uma projeção de Danny um pouco mais velho, já que seu nome completo é Danny Anthony Torrance.

"Quarto 237"
O documentário "Quarto 237" (2012) trata dos enigmas e mensagens subliminares do filme com base em várias teorias, sendo a mais sensacionalista a de que o filme se trata de uma confissão do diretor da sua participação na falsificação da NASA sobre a ida do homem à Lua (Danny com a camiseta com a inscrição Apollo 11 no momento em que é atraído para o quarto, o diálogo sobre contrato e responsabilidade entre Jack e Wendy, e a mudança do número do quarto de 217 para 237 - a distância da Terra à Lua é de aproximadamente 237 mil milhas - seriam pistas dessa confissão).

Stephen King X Stanley Kubrick
Sabe-se que King não gostou nada da adaptação de Kubrick para "O Iluminado", incomodado pela descaracterização dos personagens e com a escolha de Jack Nicholson para viver Jack Torrance (King preferia Jon Voight). Considerado um dos maiores clássicos do cinema, o filme nem sempre foi visto dessa forma. Quando foi lançado, recebeu muitas críticas e indicações ao Framboesa de Ouro.

Os livros mexem com a imaginação e os filmes agem diretamente nos sentidos através de recursos audiovisuais. Sendo as linguagens literária e cinematográfica tão diferentes, nem sempre a fidelidade funciona nas adaptações de livros para o cinema (por exemplo, os arbustos podados em forma de animais que aterrorizam Jack e Danny no hotel são ótimos elementos no livro, mas na adaptação para a televisão feita nos anos 90, as cenas não funcionam bem)Estamos diante de um clássico da literatura e um clássico do cinema. O livro merece ser lido e o filme merece ser visto, desde que o espectador entenda que se trata de uma adaptação livre e não literal.

quarta-feira, 18 de março de 2015

"Enigmas da Culpa" (Moacyr Scliar) e "Entre Garotos"(Pablo Torrens): Culpa, Religião e Sexualidade


Há cerca de um ano eu li "Enigmas da Culpa" de Moacyr Scliar. Lembro que enrolei pra começar por achar que era autoajuda (sim, cometi o erro de julgar pela capa, mas corrigi em tempo) e me surpreendi com um livro inteligente sobre os aspectos morais, religiosos, fisiológicos/ hormonais e até mesmo culturais da culpa, identificando-a em várias obras literárias (desde a Bíblia até obras como Lady Macbeth de Shakespeare e Crime e Castigo de Dostoievski).

O livro não é biográfico, mas Moacyr compartilha experiências da própria vida vez ou outra no texto (o que achei ótimo, pois me senti mais próximo desse autor que até então eu desconhecia). Moacyr fala da mãe, uma típica figura materna judaica - superalimentadora e superprotetora - de acordo com suas palavras, enchendo a mesa de comida quando ele era criança e dizendo: "Você não vai comer tudo? Vai desperdiçar sabendo que tanta gente no mundo passa fome?". E de repente ele se sente culpado pela fome no mundo.

Em "Enigmas da Culpa" consta que Freud considera a culpa resultante da própria civilização, sendo uma forma de reprimir a agressividade instintiva das pessoas. Estando a emoção mais relacionada a aspectos fisiológicos e o sentimento ligado a pensamentos e conceitos pré-estabelecidos, a culpa é um sentimento e o autoflagelo (que também pode ser um distúrbio) pode durar de dias a até mesmo uma vida toda. No contexto religioso, a culpa nada mais é que uma conseqüência da transgressão. 

Eis um dos protagonistas de "Entre Garotos" de Pablo Torrens: o sentimento de culpa. Nesse outro livro lido recentemente, uma ficção sobre um rapaz chamado Elder que, aos 18 anos, é convocado a ser missionário da Igreja Mórmon ao mesmo tempo em que lida com a descoberta da homossexualidade, a culpa é quase um personagem à parte.

A missão de Elder, comum aos jovens mórmons, consiste em viver por dois anos à disposição da Igreja dos Santos dos Últimos Dias nos Estados Unidos, sem contato com a família, sob rígidas regras e pregando o evangelho de porta em porta. Seu desconforto com essa decisão imposta pelos pais me faz lembrar da parábola de Jonas do Antigo Testamento. (Designado por Deus para profetizar a destruição de uma cidade de pecadores, Jonas recusa a missão e foge de barco. Em Sua infinita bondade, o Senhor manda uma tempestade, Jonas é atirado ao mar e engolido por um peixe, que o transporta à tal cidade). Metaforicamente, Elder também é de certa forma "engolido", absorvido pelos conflitos psicológicos causados por sua falta de vontade de seguir a missão, o medo de decepcionar os pais, a atração por alguém do mesmo sexo e tudo o que vem junto com isso: negação, instinto, conceitos como pecado, certo e errado, o bem e o mal colocados à prova e, claro, a culpa.

Escrito em primeira pessoa, o texto é agradável, fluido e envolvente. Como se passa em Joinville, pra mim foi fácil visualizar alguns cenários do livro. Em alguns momentos a sensação é a de que Elder é um amigo contando sua história, familiar a quem passa por momentos similares. Em outros, dá pra se colocar completamente no lugar dele pela narrativa introspectiva e pela sinceridade do personagem, mesmo sendo uma obra de ficção. Um dos mecanismos do autor para que o leitor se coloque na pele de Elder é não citar em momento algum o nome da mãe (na verdade, não sei se a intenção foi essa, mas pelo menos comigo funcionou assim e eu achei genial da parte dele), fazendo com que a figura materna projetada por quem lê seja a da própria mãe, não a do personagem.

Aliás, a mãe de Elder merece destaque. Como toda boa mater dolorosa, ela tenta impedir o filho de seguir um caminho que o leve ao martírio. (Mas será que não são todas as mães assim mesmo?). E assim como a mãe superalimentadora de Moacyr, ela também contribui na construção da culpa do filho. "Você não pretende casar, ter filhos, me dar netos? Não vai me dar essa alegria?". (Poxa, Elder, você vai negar essa felicidade à própria mãe? Been there, done that). Mas como toda mãe, claro que ela não se limita a cobranças. Há amor genuíno ali.

Eu poderia esmiuçar mais sobre os personagens e a história, como já fiz em outros posts, mas não quero estragar a surpresa pra quem for ler. Finalizo dizendo que a primeira paixão, a primeira confidência a alguém sobre ela, a sensação de estar perdido, o apoio encontrado na amizade, enfim, tudo isso pelo que a gente passa quando está crescendo é descrito de maneira muito bonita nesse livro e recomendo muito a leitura de "Entre Garotos", assim como espero que novos livros sejam escritos por esse jovem escritor sensível e eloquente.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O Submundo em "Taxi Driver" e "Scarface"

(Aviso de antemão pra quem não viu os filmes: o texto está cheio de spoilers!)

Segundo consta, o diretor de cinema Martin Scorsese cresceu em Nova York, no bairro Little Italy, famoso pelo crime organizado e pela máfia. Como era asmático, passou a maior parte da infância dentro de casa, protegido desse submundo, mas não indiferente a ele. Tanto que em 73, dirigiu o filme "Caminhos Perigosos" sobre a amizade entre Johnny Boy, um marginal com dívidas de jogo e Charlie, um mafioso em ascensão carregado de culpa católica e, em 76, "Taxi Driver" sobre Travis Bickle, um motorista de táxi que se envolve diretamente com a marginalidade e a prostituição das ruas de Nova York.

Achei válido assistir "Caminhos Perigosos" por ser uma espécie de rascunho do que viria a ser a parceria de Scorsese e Robert De Niro três anos depois em "Taxi Driver", mas não gostei tanto assim. A pouca empatia que eu senti pelos dois protagonistas foi totalmente anulada na cena em que eles deixam Teresa (irmã de Johnny e namorada de Charlie) para trás após um ataque de epilepsia da personagem.

Travis (De Niro), de "Taxi Driver", tem um destempero emocional fascinante desde o início. A insônia crônica o leva a trabalhar como taxista no turno da madrugada. Se interessa por Betsy, mas seu senso de realidade é tão absurdo que a leva em um cinema pornô no primeiro encontro. A rejeição de Betsy e o contato com Iris (Jodie Foster), uma prostituta de 12 anos em fuga o perturbam a ponto de fazê-lo raspar a cabeça, malhar freneticamente e planejar o assassinato do Senador Palantine, para quem Betsy trabalha. A cena em que Travis visivelmente descompensado diz ao espelho "Está falando comigo?" é considerada um dos melhores improvisos da história do cinema.
Ao mesmo tempo em que planeja o atentado mal sucedido, Travis se mostra obcecado em ajudar Iris a sair da prostituição, a ponto de se meter em um tiroteio com o cafetão dela e seus comparsas em que acaba baleado também. Em recuperação no hospital, recebe uma carta de gratidão dos pais de Iris e é mitificado pela imprensa como herói e cidadão modelo, o que é irônico, levando em conta que a visão das pessoas sobre ele seria totalmente diferente se tivesse conseguido matar o Senador momentos antes do resgate de Iris.

Em "Scarface" (1983) de Brian de Palma, Tony Montana (Al Pacino) é um refugiado cubano que chega a Miami e aos poucos se torna o líder do tráfico de drogas, sem medir esforços para atingir suas ambições. Passa boa parte do filme tentando conquistar Elvira, mulher do primeiro chefe, e quando consegue, vivem uma vida infeliz: ela cada vez mais viciada, ele cada vez mais encurralado pela própria vida criminosa. Tem um ciúme doentio da irmã, o que a leva a confrontá-lo sobre um possível sentimento incestuoso da parte dele.

Diferente de Travis de "Taxi Driver", Tony parece ser mais racional que emocional. Tony leva à risca todos os assassinatos à sangue frio a que se propõe a fazer, exceto um. Contratado para explodir uma bomba no carro de um jornalista, Tony desiste ao perceber que o atentado mataria também a mulher e os filhos do homem, mostrando um lado mais humano do mafioso.

Em contraste com o conteúdo violento do filme, a trilha sonora de "Scarface" é composta por sucessos da disco music. O contraponto entre o socialismo cubano e o sonho de vida americano é bem mostrado na história também. Tony já no começo se declara um anti-socialista e repele todas as suas experiências de vida no país de Fidel Castro, mas ao atingir seus ideais capitalistas (dinheiro, mansão, poder), constrói também a sua infelicidade, retratada de maneira melhor impossível na cena final que o mostra baleado em sua piscina e focaliza a estátua de um globo em que a frase "O Mundo É Seu" está escrita.

De Palma foi bastante atacado por feministas e acusado de misoginia após "Scarface", ao que ele respondeu com bom humor. Já "Taxi Driver" inspirou um esquizofrênico a tentar matar o presidente Reagan em 1981. Ambos se tornaram clássicos e influenciaram o cinema ao longo dos anos. "Drive" (2012), por exemplo, capta muita coisa dos dois filmes. A instabilidade, a impulsividade e até mesmo os dilemas morais (ou a falta de) de Travis e Tony me fizeram ter empatia pelos personagens e entender a grandeza dos roteiros. Mas se tiver que escolher entre os dois, "Taxi Drives" ainda é meu preferido.