O livro não é biográfico, mas Moacyr compartilha experiências da própria vida vez ou outra no texto (o que achei ótimo, pois me senti mais próximo desse autor que até então eu desconhecia). Moacyr fala da mãe, uma típica figura materna judaica - superalimentadora e superprotetora - de acordo com suas palavras, enchendo a mesa de comida quando ele era criança e dizendo: "Você não vai comer tudo? Vai desperdiçar sabendo que tanta gente no mundo passa fome?". E de repente ele se sente culpado pela fome no mundo.
Em "Enigmas da Culpa" consta que Freud considera a culpa resultante da própria civilização, sendo uma forma de reprimir a agressividade instintiva das pessoas. Estando a emoção mais relacionada a aspectos fisiológicos e o sentimento ligado a pensamentos e conceitos pré-estabelecidos, a culpa é um sentimento e o autoflagelo (que também pode ser um distúrbio) pode durar de dias a até mesmo uma vida toda. No contexto religioso, a culpa nada mais é que uma conseqüência da transgressão.
Eis um dos protagonistas de "Entre Garotos" de Pablo Torrens: o sentimento de culpa. Nesse outro livro lido recentemente, uma ficção sobre um rapaz chamado Elder que, aos 18 anos, é convocado a ser missionário da Igreja Mórmon ao mesmo tempo em que lida com a descoberta da homossexualidade, a culpa é quase um personagem à parte.
A missão de Elder, comum aos jovens mórmons, consiste em viver por dois anos à disposição da Igreja dos Santos dos Últimos Dias nos Estados Unidos, sem contato com a família, sob rígidas regras e pregando o evangelho de porta em porta. Seu desconforto com essa decisão imposta pelos pais me faz lembrar da parábola de Jonas do Antigo Testamento. (Designado por Deus para profetizar a destruição de uma cidade de pecadores, Jonas recusa a missão e foge de barco. Em Sua infinita bondade, o Senhor manda uma tempestade, Jonas é atirado ao mar e engolido por um peixe, que o transporta à tal cidade). Metaforicamente, Elder também é de certa forma "engolido", absorvido pelos conflitos psicológicos causados por sua falta de vontade de seguir a missão, o medo de decepcionar os pais, a atração por alguém do mesmo sexo e tudo o que vem junto com isso: negação, instinto, conceitos como pecado, certo e errado, o bem e o mal colocados à prova e, claro, a culpa.
Escrito em primeira pessoa, o texto é agradável, fluido e envolvente. Como se passa em Joinville, pra mim foi fácil visualizar alguns cenários do livro. Em alguns momentos a sensação é a de que Elder é um amigo contando sua história, familiar a quem passa por momentos similares. Em outros, dá pra se colocar completamente no lugar dele pela narrativa introspectiva e pela sinceridade do personagem, mesmo sendo uma obra de ficção. Um dos mecanismos do autor para que o leitor se coloque na pele de Elder é não citar em momento algum o nome da mãe (na verdade, não sei se a intenção foi essa, mas pelo menos comigo funcionou assim e eu achei genial da parte dele), fazendo com que a figura materna projetada por quem lê seja a da própria mãe, não a do personagem.
Aliás, a mãe de Elder merece destaque. Como toda boa mater dolorosa, ela tenta impedir o filho de seguir um caminho que o leve ao martírio. (Mas será que não são todas as mães assim mesmo?). E assim como a mãe superalimentadora de Moacyr, ela também contribui na construção da culpa do filho. "Você não pretende casar, ter filhos, me dar netos? Não vai me dar essa alegria?". (Poxa, Elder, você vai negar essa felicidade à própria mãe? Been there, done that). Mas como toda mãe, claro que ela não se limita a cobranças. Há amor genuíno ali.
Eu poderia esmiuçar mais sobre os personagens e a história, como já fiz em outros posts, mas não quero estragar a surpresa pra quem for ler. Finalizo dizendo que a primeira paixão, a primeira confidência a alguém sobre ela, a sensação de estar perdido, o apoio encontrado na amizade, enfim, tudo isso pelo que a gente passa quando está crescendo é descrito de maneira muito bonita nesse livro e recomendo muito a leitura de "Entre Garotos", assim como espero que novos livros sejam escritos por esse jovem escritor sensível e eloquente.
A missão de Elder, comum aos jovens mórmons, consiste em viver por dois anos à disposição da Igreja dos Santos dos Últimos Dias nos Estados Unidos, sem contato com a família, sob rígidas regras e pregando o evangelho de porta em porta. Seu desconforto com essa decisão imposta pelos pais me faz lembrar da parábola de Jonas do Antigo Testamento. (Designado por Deus para profetizar a destruição de uma cidade de pecadores, Jonas recusa a missão e foge de barco. Em Sua infinita bondade, o Senhor manda uma tempestade, Jonas é atirado ao mar e engolido por um peixe, que o transporta à tal cidade). Metaforicamente, Elder também é de certa forma "engolido", absorvido pelos conflitos psicológicos causados por sua falta de vontade de seguir a missão, o medo de decepcionar os pais, a atração por alguém do mesmo sexo e tudo o que vem junto com isso: negação, instinto, conceitos como pecado, certo e errado, o bem e o mal colocados à prova e, claro, a culpa.
Escrito em primeira pessoa, o texto é agradável, fluido e envolvente. Como se passa em Joinville, pra mim foi fácil visualizar alguns cenários do livro. Em alguns momentos a sensação é a de que Elder é um amigo contando sua história, familiar a quem passa por momentos similares. Em outros, dá pra se colocar completamente no lugar dele pela narrativa introspectiva e pela sinceridade do personagem, mesmo sendo uma obra de ficção. Um dos mecanismos do autor para que o leitor se coloque na pele de Elder é não citar em momento algum o nome da mãe (na verdade, não sei se a intenção foi essa, mas pelo menos comigo funcionou assim e eu achei genial da parte dele), fazendo com que a figura materna projetada por quem lê seja a da própria mãe, não a do personagem.
Aliás, a mãe de Elder merece destaque. Como toda boa mater dolorosa, ela tenta impedir o filho de seguir um caminho que o leve ao martírio. (Mas será que não são todas as mães assim mesmo?). E assim como a mãe superalimentadora de Moacyr, ela também contribui na construção da culpa do filho. "Você não pretende casar, ter filhos, me dar netos? Não vai me dar essa alegria?". (Poxa, Elder, você vai negar essa felicidade à própria mãe? Been there, done that). Mas como toda mãe, claro que ela não se limita a cobranças. Há amor genuíno ali.
Eu poderia esmiuçar mais sobre os personagens e a história, como já fiz em outros posts, mas não quero estragar a surpresa pra quem for ler. Finalizo dizendo que a primeira paixão, a primeira confidência a alguém sobre ela, a sensação de estar perdido, o apoio encontrado na amizade, enfim, tudo isso pelo que a gente passa quando está crescendo é descrito de maneira muito bonita nesse livro e recomendo muito a leitura de "Entre Garotos", assim como espero que novos livros sejam escritos por esse jovem escritor sensível e eloquente.

Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirSandro.
ResponderExcluirVocê a cada texto escreve melhor e deixa a gente curioso para conhecer livros/filmes.
Do Moacyr eu só li Um sonho no caroço de Abacate , que é um dos meus livros da vida. Fiquei muito curioso pelo outro livro. Parabéns e continue escrevendo.
O outro livro é de um autor de Joinville, eu estive no lançamento. Tem na Midas! :) Leia mesmo, é ótimo, amigo!
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